Conheça a história da fazenda Grataú e a trágica morte do Visconde de Ariró
Localizada as margens da BR-101 (Rio-Santos), no bairro do Frade, em Angra dos Reis, destaca-se a centenária Fazenda Grataú. Erguida no século XIX, a propriedade desempenhou um papel estratégico durante o Ciclo do Café devido à sua proximidade com o Porto do Frade, por onde era escoada a produção vinda do Vale do Paraíba paulista. Embora a data de sua fundação seja incerta, há registros de que pertenceu a Francisco Antônio Pinto Bica em 1844, passando, nas décadas seguintes, ao domínio de Pedro Ramos Nogueira, o Barão de Joatinga.

Entretanto, seu principal proprietário, ainda naquele século, foi Henrique José da Silva, o Barão e Visconde de Ariró, que foi coronel da Guarda Nacional e Capitão do Batalhão de Infantaria e influente político, sendo vereador, juiz de paz e chefe do Partido Conservador de Bananal – SP.
O Visconde de Ariró foi um homem muito respeitado em Bananal, Angra dos Reis e em Laguna, Santa Catarina. Esse reconhecimento não decorreu apenas de poder ou prosperidade, mas do espírito progressista da época. Ainda jovem, veio para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como balconista. Tornou-se oficial da Guarda Nacional em Bananal, atingindo Major e Coronel ao se reformar.
Foi proprietário de várias propriedades, entre elas a Fazenda Grataú, a Fazenda da Serra (em Bananal) e a Fazenda Loanda (em São João Batista), além de uma ilha. Era chamado de patriota na sua época. Jornais antigos apontam que contribuiu para a Guerra do Paraguai com dinheiro e enviou dez escravos jovens, custando quinze contos de réis. Na verdade, esse registro é brutal para nós hoje.
A sociedade da época, com a cruel cultura da escravidão, noticiava tais feitos como motivo de orgulho. Era ativo em contribuições, fazendo grandes donativos para o hospital de Laguna – SC. Em Bananal, contribuía com a santa casa de misericórdia e auxiliava na abertura da escola local, tanto na compra do prédio quanto no seu mantenimento.
As boas ações de caridade eram constantes, de tal forma que o jornal Echo Bananalense, sempre noticiava tais feitos, chegando dizer: “…estimamos que os atos do Visconde de Ariró encontre imitadores”.
Sobre sua morte, é conhecida a versão de que, em 1° de Outubro de 1880, após assistir ao espancamento de um escravo por um feitor, mandou parar com o espancamento do escravo que clamava por misericórdia. Muito abalado com a cena presenciada, teve um mal súbito e ficou mudo. Após perder totalmente a fala e adoecer, morre três dias depois e seu corpo foi sepultado no cemitério do Bracuhy. Tal relato se encontra na bela obra “Os Barões de Angra”, de Alípio Mendes.
De tal forma que o Visconde possuía centenas de escravos, a princípio nos parece ser um relato contraditório, pelo fato de ter tido misericórdia de um escravo. Porém uma pesquisa mais profunda, encontrando uma antiga publicação do Echo Bananelense, de 4 de outubro de 1880, esclarece o ocorrido da sua morte:
“De muito tempo que o Visconde de Ariró padecia de incômodos do coração, que se agravaram desde a noite de 1 corrente, que foi acometido por um ataque cerebral, resultado de uma imprudência de um feitor seu empregado, que mandou castigar no terreiro da fazenda um escravo; aos gritos do pobre preto, assomou a janela da sala onde se achava, o Visconde de Ariró que recebeu um golpe de ar, sentiu-se incomodado, e voltando dali pra porta para dar alguma ordem ao feitor, não pode mais falar, voltando para dentro já congestionado. Chamado imediatamente médicos, foi o seu primeiro assistente o ilustrado sr. dr. Azevedo Brandão, que com o auxílio de seu ilustre colega sr. dr. Jardim, puderam conseguir evitar os efeitos da congestão, mas, sobrevindo um derramamento no coração, exalou o ilustre o seu último alento 40 horas depois do ataque. O seu passamento e encheu de consternação sua exma. família, parentes, amigos e todos os moradores desse município (…) o finado Visconde era geralmente estimado pelas suas qualidades e boas ações”
Ainda sobre sua morte, a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, também relatava:
“Possuía um coração de verdadeiro patriota e fora um apóstolo da caridade. Fazendeiro abastado, não negava em abrir sua bolsa sempre que os necessitados a ela recorriam. Era geralmente respeitado pelo seu caráter, estimado pelo modo lhano e afável com que a todos recebia e, principalmente, pelas boas ações que espalhava ao redor de si”
O Jornal do Comércio o chamou de “filantropo, abolicionista patriota e adiantado agricultor, a quem tanto deve a cidade de Bananal, em São Paulo, pelos muitos benefícios recebidos”.
Assim também testificou o Almanak Laemmert, em 1881:
“Durante sua vida, libertou muitos escravos. Possuía um coração de patriota e um apóstolo da caridade”
Como dizia os jornais da época, era “Humanitário e abolicionista”, ao seu modo, pois não libertou todos os seus escravos antes da morte, essa é a intrigante e contraditória história do Visconde de Ariró.
Sobre a Fazenda Grataú, passado mais de um século, após sucessivos donos, hoje se dedica a criação de gado leiteiro e não está aberta a visitas.
(O texto baseado em fontes da época não representam a opinião do autor – o período foi de grande sofrimento para nossos irmãos – o objetivo é exclusivamente contar a história da fazenda e seu dono, pois a história não deve ser apagada)
*Pesquisa, texto e fotos de Hugo Delphim, publicados na Página O belo e histórico Rio de Janeiro.
*Fontes de pesquisa: Dicionário das famílias brasileiras, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, além das demais já citadas no texto.








