Usina de Angra 3 pode custar R$ 24 bilhões para ficar pronta
A usina nuclear de Angra 3, em Angra dos Reis, virou um dos maiores dilemas da política energética brasileira. Construída aos poucos desde a década de 1980, a obra soma décadas de atrasos, fraudes em licitações e trocas de controle acionário — e o governo federal precisa decidir em 2026 se termina ou abandona de vez o projeto. Entenda os motivos da indecisão, como Angra 3 chegou a esse ponto e o que está em jogo para o país.
Uma obra que já dura mais de quatro décadas
A construção da terceira usina da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto começou ainda na década de 1980, junto com o projeto de expansão nuclear brasileiro que também deu origem a Angra 1 e Angra 2. Desde então, a obra alterna períodos de avanço e longas paralisações, sempre esbarrando em problemas de financiamento e gestão.
A parada mais recente e mais longa começou em 2015, quando o financiamento do projeto foi colocado em revisão. Passados mais de dez anos, Angra 3 segue sem previsão definitiva de retomada plena, embora atividades pontuais tenham sido realizadas nesse intervalo.
Fraudes em licitações e Lava Jato: o que travou a obra
Parte importante da paralisação de Angra 3 tem origem nas investigações da Operação Lava Jato. A partir de 2015, a Polícia Federal e o Ministério Público apuraram um esquema de corrupção envolvendo empreiteiras contratadas pela Eletronuclear para a montagem eletromecânica da usina.
Em 2017, a Eletronuclear declarou nula a licitação que havia contratado o consórcio responsável pela montagem, depois que empresas como Andrade Gutierrez, UTC e Camargo Corrêa assumiram, em acordos com o Cade, a formação de cartel nas concorrências de 2013 e 2014. O Tribunal de Contas da União também declarou inidônea a empreiteira Engevix, impedida de participar de licitações federais por cinco anos. Em 2023, o Cade sugeriu a condenação de quatro construtoras e dez pessoas físicas pela manipulação desses certames, avaliados em R$ 3 bilhões.
O resultado prático dessas descobertas foi a suspensão dos contratos de obras civis e montagem, o que travou o cronograma da usina por anos e ainda hoje pesa sobre a reputação do projeto.
Como ficou a Eletronuclear depois da venda da Eletrobras
A situação da Eletronuclear mudou de forma significativa com a privatização da Eletrobras, concluída em 2022. Como a Constituição Federal reserva a geração de energia nuclear ao Estado, a legislação impediu que a Eletronuclear fosse privatizada junto com o restante da Eletrobras. Por isso, o governo criou a ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional) para assumir o controle acionário da estatal nuclear, enquanto a Eletrobras permanecia como sócia minoritária.
Mais recentemente, em outubro de 2025, a Eletrobras — já rebatizada de Axia Energia após a privatização — vendeu sua participação remanescente na Eletronuclear, de 68% do capital total e 35% do capital votante, para a Âmbar Energia, do grupo J&F, por R$ 535 milhões. Assim, a Eletrobras se desligou definitivamente do projeto, deixando a Eletronuclear ainda mais dependente de aportes públicos para se manter operacional. A estatal chegou a alertar sobre risco de colapso financeiro e pediu à ENBPar um aporte emergencial para não ficar sem caixa.
Angra 3 hoje: qual é o percentual já concluído
Passadas todas essas turbulências, o avanço físico de Angra 3 está estimado em torno de 66% a 67%, segundo dados mais recentes da Eletronuclear e de estudos do BNDES. Cerca de 92% dos equipamentos necessários já foram entregues, embora boa parte deles esteja armazenada há anos, aguardando instalação. Ou seja, a estrutura civil e a fundação já estão bem avançadas, mas falta concluir a montagem eletromecânica, etapa mais cara e complexa do projeto.
Os custos bilionários de manter uma usina parada
Mesmo sem gerar um único megawatt de energia, Angra 3 consome recursos públicos todos os anos. Atualmente, a Eletronuclear gasta cerca de R$ 1 bilhão anualmente apenas para conservar equipamentos, manter estruturas e pagar financiamentos e dívidas contraídas ao longo do projeto. Boa parte do maquinário importado, comprado há mais de uma década, precisa de manutenção constante para não perder validade técnica, o que encarece ainda mais uma obra que já soma cerca de R$ 12 bilhões investidos até aqui.
Quanto custa terminar a usina de Angra 3
Segundo levantamento atualizado do BNDES, concluir Angra 3 exigirá um investimento adicional de aproximadamente R$ 23,9 bilhões. Por outro lado, desistir do projeto também não sairia barato: o custo de abandono foi estimado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, valor que cobre a quitação de empréstimos com bancos públicos, multas contratuais e a desmobilização do canteiro de obras. Essa proximidade entre os dois valores é justamente o que torna a decisão tão difícil para o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), responsável por definir o futuro da usina ainda em 2026.
Capacidade de geração quando a usina entrar em operação
Se concluída, Angra 3 terá potência instalada de 1.405 megawatts e capacidade de gerar mais de 12 milhões de megawatts-hora por ano — energia suficiente para abastecer cerca de 4,5 milhões de pessoas. Com a nova unidade, a Central Nuclear de Angra passaria a responder por cerca de 70% do consumo elétrico do estado do Rio de Janeiro. Ainda assim, especialistas apontam que a energia gerada por Angra 3 sairia relativamente cara, próxima de R$ 800 por megawatt-hora, valor bem acima do praticado em leilões recentes de outras fontes.
Retomada das obras pode gerar milhares de empregos em Angra dos Reis
Atualmente, o canteiro de Angra 3 emprega entre 400 e 1.000 trabalhadores. Mas a retomada plena das obras pode elevar esse número para algo entre 3.500 e 9 mil postos de trabalho, segundo estimativas apresentadas por parlamentares e pela própria Eletronuclear em debates recentes.
Para Angra dos Reis, esse volume de contratações representa muito mais do que uma injeção pontual de renda. A cidade vive hoje concentrada no turismo e nas atividades ligadas à economia do mar, setores sazonais e sensíveis à alta temporada. A retomada da usina, por sua vez, abriria uma frente de empregos formais e de longo prazo, capaz de aquecer o comércio local, os serviços e a construção civil durante todo o ano.
Lideranças locais também defendem a qualificação da mão de obra angrense antes da volta das contratações. Dessa forma, boa parte dessas vagas ficaria com moradores da própria Costa Verde, e não apenas com trabalhadores de fora da região.
O Brasil vai precisar dessa energia nos próximos anos?
Enquanto o governo avalia o futuro de Angra 3, a demanda por eletricidade no país segue em trajetória de alta. Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035), elaborado pela EPE e pelo Ministério de Minas e Energia, o consumo de eletricidade no Brasil deve crescer em média 3,3% ao ano até 2035, podendo chegar a 939 TWh no cenário de referência. Setores como comércio, indústria e serviços devem liderar essa expansão, com alta média de 4,7% ao ano.
Esse crescimento reforça o argumento de quem defende a conclusão da usina: o país vai precisar de novas fontes de energia firme para acompanhar o aumento do consumo, especialmente diante da eletrificação crescente de veículos e processos industriais. Por outro lado, o custo elevado da energia nuclear e o histórico conturbado de Angra 3 alimentam o debate sobre se esse é o caminho mais eficiente para atender a essa demanda.
O que esperar da decisão sobre Angra 3
A definição sobre concluir ou abandonar Angra 3 cabe ao CNPE, que deve levar em conta os números levantados pelo BNDES, o impacto financeiro sobre a Eletronuclear e o interesse estratégico do país em manter um programa de energia nuclear. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o governo trabalha para apresentar uma definição ainda em 2026, sinalizando intenção de avançar com a obra e modernizar a estatal. Enquanto isso não acontece, Angra 3 segue como um dos maiores impasses fiscais do setor elétrico brasileiro.
Perguntas frequentes sobre Angra 3
Há quanto tempo a obra de Angra 3 está parada?
A paralisação mais longa começou em 2015, o que soma mais de dez anos de obra intermitente, embora o projeto tenha sido iniciado ainda na década de 1980.
Qual é o percentual da obra já concluído?
As estimativas mais recentes apontam entre 66% e 67% de avanço físico, com a maior parte dos equipamentos já entregues.
Quanto custa terminar Angra 3?
Estudos do BNDES estimam a necessidade de cerca de R$ 23,9 bilhões em investimentos adicionais para concluir a usina.
Qual será a capacidade de Angra 3 quando entrar em operação?
A usina terá potência de 1.405 megawatts, com capacidade de gerar mais de 12 milhões de megawatts-hora por ano.









