Como o presídio da Ilha Grande se tornou parte da história do Comando Vermelho
A Ilha Grande, em Angra, possui uma história marcada por diferentes instituições que funcionaram na região ao longo de mais de um século. Antes de se tornar conhecida pelas praias, trilhas e pelo turismo, a ilha abrigou estruturas relacionadas à saúde pública, à imigração, ao sistema prisional e ao controle de pessoas e mercadorias. Entre os exemplos mais antigos estão as ruínas do Lazareto e o antigo aqueduto da Ilha Grande, construídos ainda no período imperial e utilizados dentro de uma estrutura destinada à quarentena e ao controle sanitário de passageiros e embarcações.
Décadas depois, outro capítulo importante seria escrito com a implantação de instituições prisionais. Foi dentro desse contexto que a Ilha Grande passou a ocupar um lugar importante na história do sistema penitenciário do Rio de Janeiro e, posteriormente, na formação do grupo que ficou conhecido como Comando Vermelho.
A história prisional da Ilha Grande

A presença de instituições prisionais na Ilha Grande ganhou força no início do século XX. Em 1903, foi criada a Colônia Correcional de Dois Rios, que posteriormente passou por diferentes denominações e transformações.
A principal instituição prisional da ilha no século XX ficou conhecida como Instituto Penal Cândido Mendes. Localizado em Dois Rios, o presídio recebeu presos comuns e, durante o período da Ditadura Militar, também pessoas condenadas ou enquadradas pela legislação de segurança nacional.
Foi especialmente na década de 1970 que essa convivência entre diferentes grupos de presos passou a ter importância para a história das organizações que surgiriam posteriormente no sistema penitenciário fluminense.
Presos comuns e presos políticos

Durante a Ditadura Militar, pessoas acusadas de crimes políticos e pessoas condenadas por crimes comuns podiam acabar submetidas a estruturas prisionais relacionadas à mesma legislação de segurança nacional.
Na Ilha Grande, presos envolvidos em assaltos a bancos passaram a conviver com integrantes de organizações políticas que utilizavam métodos de ação clandestina e possuíam experiência de organização coletiva.
Pesquisas acadêmicas apontam que essa convivência favoreceu a circulação de conhecimentos sobre organização, reivindicação coletiva e formas de atuação dentro do ambiente prisional. Isso não significa que presos comuns tenham simplesmente recebido uma estrutura pronta dos presos políticos. O processo foi mais complexo e envolveu as próprias condições do sistema penitenciário.
O surgimento da Falange Vermelha
Durante a década de 1970, presos comuns começaram a formar grupos de organização e proteção dentro das prisões do Rio de Janeiro. Um desses grupos ficou conhecido como Falange Vermelha.
A organização surgiu inicialmente dentro do sistema penitenciário e estava relacionada às disputas entre grupos de presos, às condições carcerárias e às reivindicações por direitos.
Um relatório produzido em 1979 pelo então diretor do Instituto Penal Cândido Mendes já fazia referência à existência de uma organização conhecida como “Falange da Lei de Segurança Nacional” ou “Comando Vermelho”. O documento é considerado um dos primeiros registros oficiais sobre a organização que estava se formando no sistema penitenciário.
A literatura acadêmica apresenta algumas diferenças na interpretação desse processo, mas existe ampla concordância de que o grupo que posteriormente ficou conhecido como Comando Vermelho teve sua origem no ambiente prisional do Rio de Janeiro, especialmente na Ilha Grande, durante a década de 1970.
De organização prisional a grupo criminoso
A formação inicial da Falange Vermelha ocorreu dentro das prisões. Com o passar dos anos, porém, o grupo passou por transformações.
A partir da década de 1980, integrantes ligados à organização começaram a atuar também fora das unidades prisionais. O crescimento do mercado de drogas no Rio de Janeiro contribuiu para essa mudança.
A organização passou a estabelecer relações com pontos de venda de drogas em diferentes áreas da cidade e ampliou sua presença para além dos muros das penitenciárias. Estudos sobre o período descrevem essa transformação como parte do processo que levou a Falange Vermelha a se consolidar como Comando Vermelho.
É importante, portanto, separar dois momentos: a formação de uma organização entre presos na década de 1970 e sua posterior transformação e expansão no mercado criminal do Rio de Janeiro.
O resgate cinematográfico na Ilha Grande

A fuga de José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, do Instituto Penal Cândido Mendes em 31 de dezembro de 1985, permanece como um dos episódios mais audaciosos da história penitenciária brasileira.
Na véspera do Ano-Novo, em uma ação planejada nos moldes cinematográficos, um helicóptero Bell 47 foi sequestrado por comparsas e forçado a pousar em um platô próximo ao presídio de segurança máxima, localizado na isolada Vila Dois Rios.
A operação durou poucos minutos e resgatou o cofundador da facção criminosa Comando Vermelho bem diante dos olhos da guarda, que não conseguiu reagir a tempo de evitar que a aeronave levantasse voo rumo à liberdade, consolidando um marco de ousadia que expôs a vulnerabilidade do sistema prisional da época.
Por que a Ilha Grande foi tão importante nessa história?
A localização da Ilha Grande não explica sozinha o surgimento da organização. O fator central apontado pelas pesquisas está nas características do sistema prisional e na convivência entre diferentes grupos de presos durante a Ditadura Militar.
O Instituto Penal Cândido Mendes funcionava como uma unidade de difícil acesso e recebia presos considerados de alta periculosidade ou submetidos a regimes específicos. A concentração desses grupos criou condições para que relações, alianças e formas de organização fossem desenvolvidas dentro do presídio.
A própria estrutura carcerária também apresentava problemas graves. Pesquisas sobre o período mencionam conflitos entre presos, violência, condições físicas precárias, alimentação inadequada e confrontos com funcionários do sistema penitenciário.
Nesse ambiente, a organização coletiva dos presos ganhou importância e acabou produzindo consequências que ultrapassaram o espaço da prisão.
A anistia de 1979 e uma nova fase
Outro acontecimento importante ocorreu em 1979, quando a anistia política permitiu a saída de presos políticos. Os presos comuns enquadrados pela mesma legislação, porém, não foram beneficiados da mesma maneira.
Pesquisas sobre a história do Comando Vermelho apontam que essa diferença contribuiu para aumentar a insatisfação entre os presos que permaneceram no sistema penitenciário. Foi nesse período que a organização passou a aparecer de maneira mais clara nos registros oficiais.
A partir daí, a história do grupo se afastaria progressivamente das reivindicações originalmente associadas à organização prisional e se aproximaria da atuação no crime organizado e no comércio de drogas.
O fim do presídio de Ilha Grande
O Instituto Penal Cândido Mendes permaneceu em funcionamento durante grande parte do século XX. Com o passar dos anos, a instituição tornou-se conhecida nacionalmente pelas condições de funcionamento e pela presença de integrantes de diferentes grupos criminosos.
O presídio foi desativado em 1994, durante o governo estadual de Leonel Brizola. As instalações foram posteriormente demolidas.
Com o encerramento do presídio, terminou também uma das fases mais marcantes da história institucional da Ilha Grande. O local que durante décadas esteve associado ao sistema penitenciário passou a receber outro tipo de atenção, relacionada principalmente à preservação ambiental, à pesquisa histórica e ao turismo.
Da quarentena ao presídio: diferentes capítulos da Ilha Grande
A história do Lazareto e a história do presídio pertencem a períodos diferentes, mas ajudam a entender como a Ilha Grande assumiu funções muito distintas ao longo do tempo.
No final do século XIX, o Lazareto estava relacionado ao controle sanitário de passageiros e embarcações. O aqueduto construído para abastecer o complexo fazia parte dessa estrutura.
No século XX, a ilha passou a abrigar instituições prisionais, especialmente na região de Dois Rios. Décadas depois, o Instituto Penal Cândido Mendes entraria para a história do sistema penitenciário brasileiro pela formação e expansão de organizações criminosas que surgiram naquele ambiente.
São histórias diferentes, separadas por décadas, mas que fazem parte da trajetória de uma mesma ilha.
O que restou dessa história

Hoje, quem percorre a Ilha Grande encontra vestígios de diferentes períodos históricos. Próximo à Vila do Abraão estão as ruínas do antigo Lazareto e o aqueduto, estruturas relacionadas ao período imperial e às políticas sanitárias do século XIX.
Já na região de Dois Rios permanecem referências materiais e históricas relacionadas ao antigo complexo prisional.
Esses lugares ajudam a mostrar que a história da Ilha Grande vai muito além de suas praias e trilhas. Antes de se tornar um dos principais destinos turísticos de Angra dos Reis, a ilha foi utilizada para finalidades sanitárias, administrativas e prisionais.
A história do Comando Vermelho é apenas um dos capítulos desse longo processo. Sua formação está relacionada às transformações ocorridas no sistema penitenciário do Rio de Janeiro durante a Ditadura Militar e à convivência entre diferentes grupos de presos na Ilha Grande. A partir da década de 1980, essa organização passou por novas transformações e ampliou sua atuação para o mercado de drogas e outras atividades criminosas.

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